O Contemporâneo em “A Hora da Estrela”

O livro A Hora da estrela, de Clarice Lispector, é uma obra inserida no campo da contemporaneidade, pois através dele é possível estabelecer a visão da autora quanto ao social, e até mesmo das reflexões acerca da identidade da personagem, Macabéa. Além de questões como a linguagem utilizada, que tanto intriga e desnorteia o leitor. O discurso criado por Clarice foge dos padrões de suas obras anteriores, classificando-o como um novo modelo de gênero narrativo literário, porém ainda não muito conhecido. É importante frisar que tais características não são as mesmas encontradas no gênero novela, que é como a obra é classificada pela autora. Então, tal divergência ocasiona certa dificuldade quando se tenta incluir à obra num campo específico literário. No entanto, o fato de incorporar outras formas de linguagem, o conflito interior movido pelo que a sociedade dispõe aos personagens, é algo que se adequa ao Contemporâneo.

Clarice Lispector busca construir cenas, retratar emoções e desvendar o íntimo dos seus personagens, esforçando-se para dar-lhes uma vida real, ou ao menos aquilo de mais humano possível. Com isso, ela transforma o narrador num personagem, e também autor, já que ela utiliza “Rodrigo” como pseudônimo. Na obra também vemos a ênfase que é dada quanto à condição do ‘outro‘; físico, financeira, tudo se baseia no que de melhor se pode tirar como benefícios para determinadas situações, ou aquilo que é aceito pela sociedade.

Durante os relatos de Macabéa, visualizamos sua vida sofrida, seu íntimo e a forma como é tratada e vista por terceiros, que afeta o seu “eu”. Tendo em vista esses detalhes, hoje em dia, também há uma demanda de valores fúteis e volúveis, e ainda, observando o comportamento e interação entre as classes sociais, a hierarquia também está inclusa, além do interesse financeiro e desejos banais que são frequentes e visíveis. Nota-se que as relações literárias abordadas estão mais próximas à realidade do que imaginamos.

Por fim, A hora da estrela é marcada pelo enredo simples e linear, porém com um entendimento rebuscado, dependendo do ponto de vista de quem lê. Clarice escreveu utilizando a linguagem como sua aliada, possuindo um discurso metalinguístico de autor-narrador, isto é o que mais lhe diferencia de tantas outras obras contemporâneas, e até mesmo de obras de sua autoria. Um feito perspicaz e notório, longínquo do que é comum.



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