[Clássicos do Cordel – 2ª ed.]: A Surpresa da Escada do Amor

A SURPRESA DA ESCADA DO AMOR

Walter Medeiros

Quero contar pra vocês,
Com a maior precisão,
Qual foi a minha impressão,
Quando pensei certa vez
Sobre a maior emoção
Que temos no coração,
Sem contar nem até três.

Pois o amor, quando chega,
Vem logo arrepiando,
Deixa a gente se enganando,
E mole feito manteiga,
Quem ama, se abestalhando,
Pensa que está ganhando,
É a pessoa mais meiga.

Ele vai levando a gente,
Com tantos sonhos que traz,
A fazer tudo demais,
Deixa até impaciente.
É como ficar sem paz
Ser notícia nos jornais,
Junta tudo que se sente.

Eu comparo o amor,
A uma grande escada,
Comprida e enviesada,
Onde a pessoa entrou;
E que depois de entrar
Nunca pensa em voltar,
Por mais que vá sentir dor.

Ela tem tantos batentes,
Pelos quais vamos subindo,
Avançando e seguindo,
Continuando em frente;
Mesmo se desiludindo,
Todos continuam indo,
Lá ninguém é diferente.

A subida continua,
Por toda aquela escada,
Que é uma grande parada,
Maior do que muita rua;
Perigosa, engraçada,
Não se compara a nada,
Parece que se flutua.

Nessa sequência subida,
Com pássaros e jardins,
Quem sabe até querubins,
Tudo de bom dessa vida,
Finda chegando ao fim,
Pois a escada é assim,
Nunca garante guarida.

Aí vem uma surpresa,
Bem lá no fim da escada,
Uma parede fechada,
Lisa, que é uma beleza;
Não tem por onde seguir,
Pode chorar, pode rir,
É coisa da natureza.

Não se entende por quê
Se fez uma escada dessa,
Que tem batentes à beça,
Quem poderia dizer?
Alguém pregou uma peça,
É isso que interessa
A gente compreender.

Não se quer descer de volta;
Ninguém gosta de perder,
Mas não há o que fazer,
Nem precisa de escolta;
O jeito é se render,
Começar logo a descer,
E ver se ninguém lhe nota.

Cada batente é uma lágrima,
É também, uma saudade,
Pois é fim indesejado,
De deixar a cara pálida
Uma grande  decepção,
Mas por resignação,
Uma experiência válida.

Resistindo e não descendo,
Tem de se abrir uma porta,
Até com a mão, não importa,
Todo mundo compreende;
Seria uma resposta,
Como todo amante gosta,
E o problema resolvendo.

Com sacrifício e fé,
Com muita perseverança,
Inocência de criança,
Amor de homem e  mulher,
Alcançará a bonança,
Pois o amor só avança
Do jeito que a gente quer.

Não acredito que o amor
Nos leve a nada ruim;
Então, fazendo por mim,
A parede derrubou;
Vejam só qual foi o fim
Que encontrei bem assim,
Quando tudo terminou.

Depois da parede, estava
Tudo que  a gente procura:
Sem choro nem amargura,
Vejam só quem lá morava;
Quanto mais tal aventura
Parecia uma loucura,
muito mais apreciava.

Vou lhe dizer a verdade
De quem estava ali;
Só acredito porque vi,
Creia-me, por caridade;
Quando rompi a parede,
Cansado e com tanta sede,
Vi logo a felicidade.

O pior é que ela disse
Que tinha ido pra lá
Sempre me vendo chegar,
Parecendo uma tolice;
Mas disse, pra terminar,
Que não iria chegar,
Se pra lá eu não subisse.

FIM



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