[Sessão Crônica] A ausência do Tomate*

Arte de Fabyely Kams

Dia desses o José
perguntou para Maria quanto estava o tomate. A Maria muito solícita informou
que tomate não tinha não, mas que ele poderia escolher outras hortaliças que
ela dispunha na banca. José ficou irritado com tanta educação para lhe dizer
que não tinha o que ele queria. – Olha como as coisas são! Querendo ser
boazinha e educada, mas o tomate que eu quero que é bom, não tem! – Pensou ele.
Pausadamente, continuou a conversar com ela sobre assuntos frívolos que haviam
ocorrido no dia anterior perto dali. Conversa vai, conversa vem, ele foi
chegando perto, pertinho. Maria achou que fosse só ele querendo sentir sua
fragrância natural, por isso permitiu a proximidade e continuou falando sem
parar. Nenhum dos dois sabia exatamente qual era o assunto, mas as palavras
continuavam a sair. Foi então que em um momento, aquele José estava a ponto de
cair por cima de Maria, mas antes que isso acontecesse ele conseguiu ver que
atrás da bancada de legumes e hortaliças não havia mesmo nenhum caixote de
tomates, que talvez ela estivesse escondendo para não vendê-los. Virou-se,
disse ‘obrigado’ e saiu para a próxima banca. Maria nesse instante ficou
frustrada. “- Como ele deixou tantos indícios de interesse para depois ir
embora sem ao menos pedir meu telefone? Essa história de ‘tomate’ é
novidade.”
Quem imaginaria que
minutos depois, José estaria chegando em casa deprimido porque não encontrou
tomate para fazer o molho para a visita que esperava para o almoço. Os minutos
foram passando, ele já estava todo arrumado, cabelo pro lado, camiseta
quadriculada nova,  mesa e talheres
postos… Só faltava… Ding Dong. Sua visita realmente veio! Ele parecia
estranhamente feliz, abriu a porta e mostrou um largo sorriso ao olhar a pessoa
que entrava totalmente eufórica, lhe abraçando e dizendo que estava faminta.
Ele sentiu um gelo percorrer o interior de sua alma, foi então que enquanto
ela, a convidada esperava à mesa, ele pensava em mil formas de pensar se
justificar sobre o almoço não sair como o esperado. Serviu uma panela
consideravelmente grande, sendo que havia apenas duas pessoas ali. Colocou no
prato, estava um tom pastel predominante no prato. Não havia nada que pudesse
fazer agora. Colocou o sal ao seu lado para temperar. Ela o observou como se
estivesse esperando o restante, nenhum movimento. Então, num momento de pura
coragem, e medo do esperado desapontamento, José disse que não conseguiu o
ingrediente para terminar o molho. Ela olhou, deu um pequeno sorriso de lado e
disse: – Não tem problema. Eu sei que você deve ter procurado muito, admiro
isso em você, mas, será que você tem catchup aí?
Enquanto ia até a
geladeira, caminhou lentamente balbuciando algumas palavras que só ele
conseguia ouvir:

Por favor, geladeira,
tenha catchup! Tenha catchup! Tenha catchup!

(* Crônica devidamente extraída do Blog SoS People)

Sobre a Autora

Rate this post
Compartilhe este post