Impressões sobre o ‘Conto da Ilha Desconhecida’ – José Saramago

Saramago, José. O Conto da Ilha Desconhecida. SP: Companhia das Letras, 1998. 62 p.   
 

   O livro intitulado ‘O conto da Ilha Desconhecida’ que faz parte da editora Companhia das Letras, apresenta apenas 62 páginas, dentre o qual vê-se Aquarelas de Arthur Luiz Piza. O texto não segue uma estrutura no qual vemos em diversas, ou na maioria das obras conhecidas até hoje. Característica que é explicitamente vinda de Saramago. Outra coisa muito importante, é a questão da falta de paragrafação e pontuação, aonde muitas vezes o leitor é obrigado a manter-se fiel numa mesma frase aonde, um ou mais personagem cita sua fala. Além da caracterização dos personagens incluir na classificação de tipos, aonde estes são identificados por sua profissão, ou classe social como: o rei, o homem, a mulher da limpeza, o capitão.
   Aludindo ao texto bíblico: “Batei e abre-se-vos-á”, Saramago conta a história de um homem que bate a porta do rei para fazer-lhe um pedido, não saindo de lá mesmo após 3 dias.
“Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tampando-se com a manta por causa do frio.” (p.10)
  Finalmente quando consegue obter a atenção do monarca, pede-lhe então um barco para que possa ir em busca de uma ilha desconhecida. O rei por sua vez, desdenha de sua ideia e o julga incapaz de encontrar algo que segundo ele, não existe mais. Após toda uma conclusão de ideias e argumentos ditas pelo homem, o rei concede-lhe o baro e este sai em busca de conhecer-se a si mesmo através desta viagem que almeja.
  Todo o enredo é recheado de parábolas, tanto bíblicas quanto filosóficas, como em “todo homem é uma ilha”. Logo que esta figura de linguagem possui um conteúdo moral que é explícito ou implícito, tornando sua estrutura algumas vezes, um tanto dramática. É uma prosa altamente metafórica com fatos que sugerem comparação; Lição ética indireta ou simbólica.
“Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão navegar…” (p.18)
   A simplicidade é um algo a mais que vemos dentro da obra de Saramago, pois o autor insere pensamentos, frases que torna a leitura reflexiva e primorosa, como em:
“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”. (p.32)
  O que temos aí é um trecho aonde o autor brinca com o sentido das palavras, assim como em todo o texto. Ele expõe um mundo materialista e individualista, mas também os sentimentos mais simples e singelos que a humanidade pode ter. Curiosidade, desejo de liberdade, de conhecimento, de esperança. Essas características estão presentes tanto no homem que é escrito com H minúsculo, como também na mulher da limpeza. 
  A narrativa de Saramago busca sempre a conscientização do leitor. Tanto é que ele age de maneira engenhosa ao mostrar a figura do monarca como emblemática; sempre disposto a oferecer serviços, desde que sejam de acordo com o que lhe apetece. Não priorizando promover o bem estar do povo. A mulher da limpeza antes serva dos serviços ao reino, foge pela “porta das decisões” (como ela enfatiza algumas vezes), para seguir o homem, e refugiar-se numa esperança de encontrar o lugar que ele tanto falou, este por sua vez, a conquista por sua determinação em enfrentar o ao fazer o pedido para conseguir encontrar a ilha. A busca do autor, é universal, origina-se na direção de que o ser humano se sente impelido, mesmo ciente de que talvez não chegue ao fim.

“…mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver”. (p.40)


“Se não sais de ti, não chegas a saber quem és”. (p.40)


“Como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio”. (p.49)


  Tais frases refletem o conjunto de sentidos que está implícito e a espera de que sejam desvendados. Interpretados? É claro. Muitos de nós perante o cotidiano, sentimos uma forte ligação ao que temos de seguro, de certo. A questão é que com esta leitura, também refletimos quanto ao que somos, ao que queremos, como agimos para conseguir atender aos desejos, vontade, e como também ficamos estáticos para não enfrentar os percalços do desconhecido, do enfrentamento. Com persistência podemos descobrir o que realmente buscamos em nossa vida, nós, os seres humanos; felicidade, conhecimento. Segundo a obra, a busca faz parte da condição humana, e o personagem insiste em encontrar o que procura. Há uma possibilidade de que seja uma coisa ilusória. Talvez. Mas o percurso entre descobrir a verdade ou ilusão do que nos rodeia, é algo que cada um deve se esforçar e sair da sua condição de ‘ilha’ e ir aonde possa ver a si mesmo, para então conhecer o tão almejado, ou o que nem mesmo sabendo a nosso respeito.

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