Análise de: “Surdez, Educação de Surdos e Sociedade” de Angela Carrancho da Silva

O
texto de Angela Carrancho apresenta de início um capítulo introdutório acerca
da panorâmica sobre surdez e a forma que os surdos vêm sendo educados. Para
isso, ela coloca uma citação e o seguinte questionamento: “Que é ser diferente
em uma sociedade de iguais?”. Naturalmente que a autora usa deste artifício
para chamar a atenção do leitor e já coloca-lo numa situação de reflexão para o
tema. Logo, que há uma dualidade no conceito de diferente, e uma generalização
quanto ao termo ‘igual’. Iguais são os seres que apresentam a mesma forma,
mesma característica, personalidade, mesmo rótulo, mesmas capacidades lógicas;
de desenvolvimento; de crescimento; de oportunidades; de introdução numa
sociedade que os aceite como tal, por serem perfis aceitáveis para assumir
posições mediante a comunidade que participa. Já aquele que é diferente, é
obrigado a carregar sua marca em evidência para que todos os outros possam
distingui-lo, e ainda, se sentir na forma de limitado e renegado ao direito de
participação ativa na sociedade, pois sua alternativa é nada mais que aceitar
uma premissa organizada pelos demais para que torne essa sua vida como cunho
social, onde seu cotidiano é apenas junto aos que partilham da mesma diferença.
Partindo
dessa ideia de conceitos quanto à consideração da sociedade com os surdos, ela
objetiva traçar o perfil dos estudos que vão analisar a surdez, e todas as suas
consequências para a educação do sujeito surdo. Perante a isso, ela usa uma
definição para surdo advinda da Sociedade Otológica Americana como “o indivíduo
cuja audição não é funcional na vida comum”. E mais, que segundo Krech &
Crutch (1967, p38) “falta ao surdo a capacidade de situar, através do som, um
objeto no espaço como, também, as indicações alertadora e avisos de nosso
ambiente físico.” Isso é importante porque esses conceitos de autores denota a
surdez que é dita como deficiência física não visível, atinge interiormente o
emocional do indivíduo, logo que a não audição o priva de coisas
extraordinárias como o revoar dos pássaros, o som da música, a voz de um ente
querido. E que por sua vez, gera consequências que retardam o desenvolvimento
emocional, social e educacional do surdo.
Não
é apenas nos conceitos que ela se prende, pois enfoca também na questão de que
o surdo toma conhecimento do instrumento linguístico utilizado pelo meio que o
cerca, e que isto seria uma forma de se transpor para outro mundo, e este
instrumento vai propiciar uma aquisição rápida de informações que antes não lhe
fazia sentido, ocasionando num obstáculo no qual ele precisa enfrentar para
assim chegar ao mundo social de forma efetiva.
Após
essa primeira parte de introdução, começa a ser trabalhado o tópico que trata
da Educação do Surdo, o histórico e as diferenças entre as abordagens. Em
virtude disso, é visto como a sociedade majoritária, ou seja, de ouvintes
impuseram sua abordagem dita e com muita polêmica, que suas metodologias auxiliariam
os surdos na comunicação/ inclusão por meios contraditórios e confusos. Foi
então que surgiram então as vertentes: o oralismo e o não-oralismo. A corrente
não-oralista visava estudar uma língua de sinais utilizada por surdos, aonde os
professores deveriam aprender os sinais e repassá-los aos alunos surdos, e a
partir daí, se ensinaria a língua falada e escrita do grupo majoritário. Já os
representantes do oralismo defendiam que tal ensinamento só seria possível
através da língua oral, sendo que para eles, a língua escrita surgia no
decorrer do falar, sendo então uma língua secundária.
Com
isso, os anos foram passando e as correntes estavam cada vez mais contrárias e
sem receber nenhuma apresentação sumária de que os seus métodos estavam
evoluindo para a capacitação do surdo como ouvinte, logo que, é o que as duas
buscam, uma forma de tornar o surdo o mais próximo do ser que ouve, que fala.
Tanto por meio das atividades que eram desenvolvidas, como: tarefas lúdicas com
crianças surdas, no intuito de fazê-las aprender palavras isoladas,
desenvolvendo uma linguagem artificial, ou até mesmo de leituras labiais, que
só conseguiram  arrematar críticas de
pensadores como Vygotsky, que afirmava que se a criança aprendesse tais palavras
as duras penas, ela no futuro passaria a rejeitar a mímica, que no caso, está
inclusa numa das formas de contextualizar o significado da fala para os surdos.
Talvez seja por isso que nenhuma das duas conseguiu resultados consideráveis
para os estudos que se realizavam.
E
com tamanho insucesso do oralismo, surgiu na década de 1970, a comunicação
total, aonde o objetivo seria “usar sinais, leitura labial, amplificação e
alfabeto digital para fornecer input linguístico
para estudantes surdos, para que eles pudessem se expressar nas modalidades
preferidas” (Stewart, 1993, p. 118). 
Portanto, sua característica principal era não ser uma metodologia, mas
uma filosofia de trabalho que estava voltada para o entendimento  e a educação dos surdos. O entendimento do
surdo como pessoa e que a surdez seria sua marca pessoal. Isso o distinguia da
oralização, no entanto, assim como na abordagem anterior, nesta os críticos
diziam que era impossível que o professor falasse e sinalizasse utilizando as
duas línguas, e que a estrutura frasal não era igual quando se tratava da
fala/sinal. Mas é importante frisar que, a técnica na comunicação total era
intermediar a comunicação entre os surdos e os ouvintes, por isso, os aspectos
da fala possuíam representações fieis o que não era possível quando se tratava
da escrita.
Ainda
nas críticas feitas a esta abordagem, existiu também os problemas das práticas
bimodais, que segundo pesquisadores, os professores não conseguiam utilizar os
sinais simultaneamente junto ao ato da fala, pois em algum momento a estrutura
frasal não condiz com a forma do emprego dos sinais, sendo então evidenciado
mais uma vez, que esta também não foi à abordagem que conseguiu expor aos
surdos uma educação aonde a fala/escrita e os sinais pudessem andar juntos/lado
a lado.
Foi
então que estudos feitos desenvolveram práticas pedagógicas que a partir dos
resultados da comunicação total, veio como alternativa educativa, a educação
bilíngue. Esta por sua vez, parte do reconhecimento de que os surdos vivenciam
duas línguas: a língua de sinais, que seria a primeira língua; sua língua
natural que é usada pela minoria. E nessa abordagem, eles apontam os surdos
como capazes de desenvolver mesmo sem ouvir, uma língua espaço-visual, que no
caso, seria a sua segunda língua, a língua da maioria. Afastando-se então do
oralismo e também da comunicação total, no momento em que nomeiam os surdos
como possuidores desse desenvolvimento canal-visual como fatos para aquisição
da linguagem sem ter que haver pressões para esquecerem seus traços culturais, sua
personalidade, e suas diferenças individuais.
O
bilinguismo busca desenvolver o surdo em suas habilidades na língua primária,
de sinais e como secundária a escrita. O que surge como preocupação então é a
questão do respeito da autonomia das línguas de sinais, ou seja, uma forma de
estruturar a criança para que suas experiências não afetem o psicossocial.
Por
fim, a autora faz uma conclusão acerca das escolas da atualidade que relacionam
o poder de origem para desenvolvimento do saber. E que assim como o portador de
necessidades especiais, e em especial o surdo, que foi o objeto do estudo
realizado por ela, falará por ele e também pela escola que frequenta, aonde
representará o saber/ poder que terá acesso limitado se a estrutura for essa
que vem permeando até agora.
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