[RESENHA] A FEITICEIRA (Contos Amazônicos – Inglês de Sousa)

Como
havia comentado no artigo sobre o conto O Voluntário presente no livro Contos Amazônicos, de
Inglês de Sousa. Tinha me comprometido a postar uma resenha de cada conto aqui
no blog. Bom, demorei um pouco, mas não esqueci! Por isso, estou aqui para
publicar a segunda resenha, A Feiticieira. Reitero aqui que esta obra é
simplesmente uma das mais importantes e mais completas quando o assunto é Literatura Regional, portanto, não esperem nenhuma temática diferente
daquelas que já expliquei na resenha anterior. (Clique no link acima para
ler/reler)
Nesse
conto, o autor vai trabalhar a crença nas crendices, nos mitos, nas tradições e
como elas são tidas como algo reluzente à determinadas regiões. A história gira
em torno do tenente Antônio de Sousa que “era um desses moços que se gabam
de não crer em nada, que zombam das coisas mais sérias e riem dos santos e dos
milagres”. Esse personagem aparece no conto como aquele que não se
importava e não levava a sério as histórias que ouvia, se vangloriando de não
cair nas armadilhas contadas por pessoas que para ele não
tinha credibilidade, e que fazia as outras pessoas de tolas. 

“Apontava
a lua com o dedo, deixava-se ficar deitado quando passava um enterro, não se
benzia ouvindo o canto da mortalha, dormia sem camisa, ria-se do trovão!
Alardeava o ardente desejo de encontrar um curupira, um lobisomem ou uma
feiticeira. Ficava impassível vendo cair uma estrela, e achava graça no canto
agoureiro do acauã, que tantas desgraças ocasiona.”

Antônio
de Sousa morava em Belém, saiu de lá abandonando os estudos de medicina devido à
falta dos meios de banca-los e foi para a província em 1871, que foi quando conseguiu entrar como oficial do Corpo de
Polícia, e no ano seguinte acabou por ser promovido a tenente e nomeado
delegado de Óbidos.
“O seu gênio folgazão,
a sua urbanidade e delicadeza para com todos, o seu respeito pela lei e pelo
direito do cidadão faziam dele uma autoridade como poucas temos tido. Seria um
moço estimável a todos os respeitos, se não fora a desgraçada mania de duvidar
de tudo, que adquiria nas rodas de estudantes e de gazeteiros do Rio de Janeiro
e do Pará.”
Sua
mania de duvidar e de certa forma, de desrespeitar as tradições regionais e
culturais, foram o seu infortúnio.
Antônio
de Sousa era cético e quando ouvia casos extraordinários, que ali foram
sucedidos, zombava das crenças do povo. Até que ouviu sobre Maria Mucoim, uma
afamada feiticeira; e ficou extremamente curioso para conhece-la. O autor a
descreve como:
“uma velhinha magra,
alquebrada, com uns olhos pequenos, de olhar sinistro, as maçãs do rosto muito
salientes, a boca negra que, quando se abria em um sorriso horroroso, deixava-se
ver um dente – um só! – comprido e escuro. A cara cor de cobre, os cabelos
amarelados presos ao alto da cabeça por um trepa-moleque de tartaruga, tinham
um aspecto medonho que não consigo descrever. A feiticeira trazia ao pescoço um
cordão sujo, de onde pendiam numerosos bentinhos, falsos, já se vê, com que
procurava enganar o próximo, para ocultar a sua verdadeira natureza.”
Seu
primeiro encontro com essa mulher causou imenso impacto que ele se negou a
considerar a posição que ela tinha àquela comunidade. Ele zombou, caçoou, sem
receber nenhuma resposta, mas, “ela lançou ao rapaz um olhar longo, longo que
parecia querer transpassar-lhe o coração. Olhar diabólico, olhar terrível, de
que Nossa Senhora nos defenda, a mim e a todos os bons cristãos.”. 
Nesse
instante as risadas pararam, ficaram presas e surgiu um sentimento de medo no
personagem que dantes não havia sentido jamais. Este encontro foi o ápice do
conto, a partir daí o personagem se vê numa situação de que tem que ir atrás
novamente desta feiticeira para tomar-lhe as devidas respostas, a fim de honrar
ele própria sua crença: ir tirar a limpo as tais feitiçarias realizadas por
ela, pois ele acreditava que ela enganava a todos da vizinhança.
Procurou
por ela, até que viu uma antiga casa e nela estava “Maria Mucoim dançando sobre
a cumieira danças diabólicas, abraçada a um bode negro, coberto com um chapéu
de três bicos […]”
. O autor realça a imagem do leitor, acrescentando um
cenário macabro, onde se imagina um ritual em desenvolvimento, logo que ele
cita o forte cheiro de enxofre, a dança, os animais, o isolamento da
feiticeira. Antônio Sousa após invadir a casa dela, jogá-la no chão, ver o que
tinha em sua casa e sentir o real desespero de que não devia estar ali, tornou
a fazenda onde caiu na rede ardendo em febre. Agora vem a parte fantástica do
conto! Ele acorda e sente a água subindo, alçando o peito, não conseguia
correr, teve que nadar, não encontrou nenhuma das outras pessoas na casa. Nesse
momento, a o sítio estava completamente inundado, os cacauais, a casa, as
laranjeiras, os animais todos submergindo aquele terrível espetáculo assombroso.
Foi então que ele avistou uma canoa, ao qual tentou desesperado e com um
violento esforço alcançar, tomando como sua única salvação. Quando subiu
achando estar ali o tenente Ribeiro, teve uma incrível surpresa!
“[…]
não era o tenente Ribeiro o tripulante da canoa. Acocorada à proa da montaria,
a Maria Mucoim fitava-o com os olhos amortecidos e aquele olhar sem luz, que
lhe queria transpassar o coração.”
Esse
conto, confesso que deu um pouco de medo. Não só porque eu sou medrosa, mas
principalmente pela clareza dos detalhes colocados por Inglês de Sousa, ao ler
você imagina a cena, as ações dos personagens e todo aquele cenário repleto de
mistério. A inverossimilhança ao final foi uma coisa a mais, logo que ninguém
iria imaginar uma coisa dessas, até porque é impossível que se aconteça. Isso é
o que chamamos de fantástico dentro da literatura. Então, o conto informa o leitor,
conta uma lenda e trata das tradições e crenças que devem ser respeitadas por
aqueles que veem de fora.  Trás a cultura
regional daquela área e a transforma aos nossos olhos. Uma coisa importante é
que nesse conto, assim como no outro, o autor inclui os tapuia, remetendo à
representação fiel desse povo nessas lendas.
Espero
que tenham gostado. Até a próxima resenha! Se você gostou, compartilhe, e curte
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importante para que sejam feitas melhorias para próximos artigos.


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