Sobre Miniconto

arte: Desmazelas

 Miniconto é uma reprodução
minimalista. Bem inferior ao tamanho da estrutura do Conto que conhecemos, é
contada a letras. Em sua apresentação traz uma gama de sugestões ao leitor,
aonde sua tarefa será decodificar as elipses narrativas presentes na história,
e assim chegar ao que o autor está querendo falar por trás de sua escrita.

Comentei que é contado a letras,
porque há minicontos com trinta e sete letras, que é de autoria de Augusto
Monterroso. O que, aliás, o coloca como autor do mais famoso e conhecido
miniconto já escrito:

Quando acordou o dinossauro ainda estava lá. 

A questão do número de letras é
muito importante, mas por vezes se torna algo relativo. No entanto, escrever
com quantidade exata de números se torna um desafio. Imaginem! Não basta apenas
um miniconto, mas mostrar subjetividades infindas para que o leitor se divirta
tentando adivinhar.
No Brasil, temos
Dalton Trevisan, que é considerado o ponto de partida do miniconto no seu
formato contemporâneo. (Já postei um conto dele aqui no Desmazelas). Além de
João Gilberto Noll que também trabalha com minicontos – Noll, é autor de O Cego
e a Dançarina, livro contemporâneo que já foi comentado aqui no blog também -,
o importante é que há um número extenso de autores conhecidos e anônimos que
contribuem na produção dos Minicontos, dentre eles, está o conhecido cronista 
autor de vários livros, blogueiro, jornalista, professor e poeta, Fabrício
Carpinejar.

Agora, veja as
características do miniconto:
CONCISÃO

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso. Ernest
Hemingway


NARRATIVIDADE (MUITOS DOS DITOS MINICONTOS SÃO, NA
VERDADE, TIRADAS LÍRICAS)
Embaralhada
 Era o carro que eu não tinha mais. Mas aquela mão era certo que
eu ganharia. Um pôquer de ases. A facada no rim fez meu sangue jorrar e a
visão, foi ficando embaralhada…
TOTALIDADE (UM
MINICONTO NÃO É UMA STORY LINE)
Flamenco
 A moradora do andar de cima começou a aprender a dançar
flamenco. Outro dia, coitada, morreu atropelada. Fui no seu enterro e, no seu
túmulo, sapateei.
No Cartório
Se chamava Roberdo. Um dia, cansou de
ter seu nome mudado invariavelmente para Roberto em cada novo cadastro ou
inscrição que fazia. Mudou para Gegaldo.
SUBTEXTO
  
A História do Mundo (ou minha história no mundo) 
No começo foi o Big Bang.No final, só o Bang!
AUSÊNCIA DE
DESCRIÇÃO
Prisão
 Acordo às seis. Trabalho. Almoço.
Trabalho. Janto. Durmo. Acordo às seis. Trabalho. Almoço. Trabalho. Janto.
Durmo. Acordo às seis. Trabalho. Almoço. Mato meu chefe.
No posto de gasolina
Escolheu a pior hora de largar o cigarro.
(inspirado no microconto “Nitroglicotina” de Lais Chaffe
 
RETRATO DE
“PEDAÇOS DA VIDA” 
Precoce
 Minha infância durou pouco. Aos oito anos,
apanhava do meu pao. Cedo, comecei a beber e sair com qualquer puta que se
oferecesse. Passei a usar drogas cada vez mais fortes. Estive internado para
desintoxicação por três vezes. Roubava para sustentar o meu vício. Quando fiz
nove anos, tudo mudou…
Vida no campo
 Morar naquela casa lhe fazia bem. O ar do
campo, barulho do riacho ao fundo e os passarinhos pela manhã. No pomar, frutas
que jamais imaginara pudessem existir. E que doçura! Aquele entardecer com o
sol se pondo nas montanhas, a noite estrelada, deitado na relva… Se soubesse
que a vida lá era essa maravilha, tinha assassinado os donos há muito mais
tempo.
FINAL
SURPREENDENTE
Lixo humano
Aquele canalha. Um traste meu marido. Como é que
pode der assim? Que animal! Vagabundo. Filho duma puta! Se eu soubesse que ele
ia me bater assim, não tinha me juntado com ele! Tanta algazarra só porque
larguei o bebê no lixo…
 
Férias de
sequestrador
 Romualdo e Vanilda voltaram depois de trinta
dias de férias. – Querida, está sentindo um cheiro estranho aqui em casa? – É
verdade, e vem lá de baixo. – Será que o esgoto entupiu? – Querido! Os reféns!
 

Sobre a Autora

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