[RESENHA] O Donativo do capitão Silvestre – Inglês de Sousa

O 5° conto do livro: Contos Amazônicos de Inglês de Sousa, traz o Donativo do capitão Silvestre.
Em princípio, ele começa contando o relato de como foi essa história famosa do donativo, o qual o capitão Silvestre contribuiu para a guerra contra os ingleses. Tudo acontece em Óbidos, e o narrador nos conta que foi testemunha ocular do fato.

Era no ano de 1862 e chegara do Pará o vapor Manaus, trazendo notícia circunstanciada do conflito levantado pelo ministro inglês William Dougal Christie a propósito das reclamações de súditos brasileiros e ingleses, que deviam regular-se pela convenção de 2 de junho de 1858, e sob o pretexto da prisão de alguns oficiais da fragata Forte.

Uma coisa importante desse conto é que assim como em O Voluntário, há uma enorme exposição de fatores históricos presentes no texto. Vejam bem, nesse conto temos a reiteração das mazelas sofridas pelo povo do pará quanto aos ingleses que insistiam em se apoderar do território. Pois, com a chegada do ministro citado anteriormente, agitou-se o município e o sentimento de patriotismo. A nacionalidade adormecida desde as sangrentas lutas da nossa integração política, posteriores à independência, vibrou sonoramente no coração dos paraenses.
Com isso, cita-se também os cabanos de 1835. ¹

O governo imperial, receoso de uma luta armada com a Inglaterra, apelava para o patriotismo dos brasileiros, e enquanto a intervenção dos reis de Portugal e da Bélgica procurava dar uma solução amigável à pendência, tratava o gabinete de São Cristóvão de promover o armamento do país, e fora lembrado o meio das subscrições populares, para remediar a carência de recursos no tesouro público.

O que ocorreu então, foi a invocação do destemido patriotismo dos paraenses. A agitação na cidade de Óbidos, expandia-se cada vez mais, assim, o coronel Gama, chefe do partido conversador, e o juiz municipal, foram incumbidos de angariar donativos para o projetado armamento, fazendo isso, eles se armavam de toda audácia possível, emulando um com o outro uma grande dedicação patriótica.
Muitos decidiram ajudar, e participar deste ato, doando tudo o que tinha valor. Os populantes, na sua tocando humildade, lançavam mão dos recursos que possuíam, tais quais: alguns ovos, algodão, economias de muitos meses, e levavam orgulhosos ao coronel Gama.
Eis então, uma frase célebre:

Santo patriotismo popular, quantos heroísmos humildes e obscuros tens produzido nas épocas decisivas da nossa história!

Percebe-se que o povo de Óbidos não conhecia os costumes dos ingleses, e o pouco que sabiam, eram  impressões negativas que remetem uma certa ironia. Veja:

Afirmava o Marcelino que os ingleses falam atrapalhadamente para melhor esconder os seus segredos e surpreender os nossos, e repisava o caso do tal que não entendia o português quando lhe cobravam uma conta.

Ocorreu que aqueles incumbidos de arrecadar o valor, decidiram pedir ajuda ao senhor capitão Silvestre. Este era um dos mais abastados negociantes e fazendeiros do município. A partir da história dele, é possível observar sua ombridade frente aos demais. Tudo o que eles tinham eram 9 réis, e esperam que com o donativo do capitão, conseguissem uma dezena. E na situação seguinte, foi muito mais que o esperado… ele ofereceu “cem bacamartes²”, a maior quantia até o momento e colocando o seu donativo, estava feita a oferta contra os ingleses.
Por fim, como comentei no início, este conto nos ofereceu maiores fatos históricos que embasassem o enredo. Repleto de dinamicidade, e relatos, com datas e nomes, O Donativo do capitão Silvestre traz a imagem do Pará reivindicando sua participação contra os ingleses que buscavam assolar a pátria contida no pequeno município de Óbidos.
A resenha seguinte, sairá semana que vem. Não percam!
¹A insurreição chamada cabanagem ocorre no Pará, no período regencial, entre 1835 e 1840. Apresentou um caráter acentuadamente popular, envolvendo os cabanos, os moradores pobres das cidades e das povoações ribeirinhas: índios, mestiços e negros. (N. do E.)
²O “bacamarte” era uma moeda de ouro nos Estados Unidos que corria então com abundância no interior do Pará. Valia pouco mais ou menos trinta e seis mil réis da nossa moeda. *
Leia as outras resenhas dos contos aqui:
4. Acauã

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