[SESSÃO POESIA] Ed. N°5 : Lira Paulistana – Mário de Andrade

O
BONDE
O bonde
abre a viagem.
No banco
ninguém,
Estou
só, ‘stou sem.

Depois sobe um homem,
No banco
sentou,
Companheiro
vou.

O bonde está cheio,
De novo
porém
Não sou
mais ninguém.
(Lira Paulistana -1944)

Mário de Andrade
Lira paulistana n° 8
Partir eu parto… 
Mas essa musica é mentira.
Mas partir eu parto.
Mas eu não sei onde vou.
QUANDO EU MORRER
Quando eu morrer quero
ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,

          Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
          Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
          Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
          Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
          Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
          Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
         
Adeus.

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. São Paulo, Martins, 1955, p. 391

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