[4VÍDEOS] POEMAS E TEXTOS DECLAMADOS

Assista vídeos declamados com poemas e textos incríveis!! Para estreia desta semana, os autores selecionados foram: Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Marina
Colasanti e Elizabeth
Bishop.



ARTE DE AMAR
(Manuel Bandeira)

Se queres sentir a
felicidade de amar, esquece a tua alma.A alma é que
estraga o amor.Só em Deus ela pode
encontrar satisfação.Não noutra alma.Só em Deus — ou
fora do mundo.As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Interpretação do texto “Não entendo”,
de Clarice Lispector declamado por Antônio Abujamra. 
Música: Yann Tiersen – Father is Late

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa
qualquer entender.

Entender é sempre limitado.

Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha,
como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco. Não demais:
mas pelo menos entender
que não entendo




EU SEI, MAS NÃO DEVIA
(Marina Colasanti)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma
a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao
redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E,
porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E,
porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à
medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma
a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo
porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo
da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e
dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma
a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os
mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não
acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita
ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma
a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para
as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava
tanto ser visto. 
A gente se acostuma
a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o
dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para
pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar
mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma
a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a
televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser
instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma
à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz
artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às
bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos
rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer
a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma
a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai
afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema
está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o
trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim
de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica
satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma
para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar
feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o
peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que,
gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

A ARTE DE PERDER 
(Elizabeth Bishop)

A arte de perder não é nenhum mistériotantas
coisas contém em si o acidentede
perdê-las, que perder não é nada sério.Perca
um pouco a cada dia. Aceite austero,a
chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte
de perder não é nenhum mistério.Depois
perca mais rápido, com mais critério:lugares,
nomes, a escala subsequenteda
viagem não feita. Nada disso é sério.Perdi
o relógio de mamãe. Ah! E nem querolembrar
a perda de três casas excelentes.A arte
de perder não é nenhum mistério.Perdi
duas cidades lindas. Um impérioque
era meu, dois rios, e mais um continente.Tenho
saudade deles. Mas não é nada sério.Mesmo
perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)não
muda nada. Pois é evidenteque a
arte de perder não chega a ser um mistériopor
muito que pareça (escreve) muito sério.

Gostou desta publicação? Não se esqueça de
deixar um comentário! 

Sobre a Autora

Rate this post
Compartilhe este post